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quinta-feira, 7 de maio de 2020

"Uma falsa sensação de segurança"

Desde a passada segunda-feira que iniciamos uma nova fase nesta situação pandémica que vivemos.
Começamos a fase de desconfinamento, um regresso gradual à "normalidade". 
Com a pressão da retoma necessária das atividades económicas os países estão a levantar as medidas de contenção contra a COVID-19. 
Segue em seguida o plano para Portugal.

Nesta primeira etapa foram tomadas as seguintes medidas de abertura:

  • comércio de rua com área até 200 m2, livrarias, comércio de automóveis e serviços de higiene pessoal (os cabeleireiros e barbeiros que todos precisavamos)
  • Bibliotecas e arquivos
  • Prática de desportos individuais ao ar livre 
  • Serviços públicos, apenas com marcação prévia 
  • Transportes públicos com 2/3 da sua capacidade total

Foto: Leonardo Negrão/Global Imagens

Numa segunda fase, esta que se iniciará dia 18 de maio:


  • Abertura do comércio de rua até 400 m2 ou partes de lojas até 400 m2
  • Museus, monumentos, salas de exposições e equipamentos culturais de propósito similar 
  • Regresso dos alunos do 11º e 12º ano às disciplinas que realizarão exame nacional/ 2º e 3º anos de cursos profissionais
  • Restaurantes e cafés abrirão com uma lotação de 50%, com esplanadas a funcionar 
A partir do dia 30 de maio:
  • Cerimónias religiosas abertas ao público com as devidas limitações
  • Regresso das competições oficiais da Primeira Liga de futebol, à porta fechada
Na última etapa de desconfinamento:
  • Lojas com área superior a 400m2 e lojas em centros comerciais
  • Cinemas, teatros, salas de espetáculos com lugares marcados
  • Reabertura das Lojas do Cidadão 
  • Teletrabalho parcial


             Para que estas medidas tenham efeito temos de cumprir escrupulosamente as indicações das entidades de saúde. Utilizar máscara em locais com maior aglomeração de pessoas e desinfetar regularmente as mãos.

             Para Adolfo Garcia- Sastre, professor de Medicina e Microbologia do Instituto de Saúde Global Mout Sinai, em Nova Iorque, o regresso à normalidade que nos acostumamos a viver só acontecerá daqui a um ano, com ou sem vacina. "Dentro de um ano poderemos começar a levar uma vida normal. Existirão infeções, no entanto o seu controlo poderá ser feito com maior facilidade."
Acrescenta que "Quando o número de casos começar a diminuir, é importante não cantar vitória e não sairmos todos para a rua, porque é fácil que o vírus volte a atacar.", afirmou em entrevista ao jornal espanhol El País.

Situação de Singapura


             A situação em Singapura pode alertar-nos para que sejam tomadas decisões o mais refletidas e conscientes possíveis quanto ao desconfinamento.
             Muitas vezes elogiada pelo seu excelente trabalho no combate ao novo coronavírus, Singapura, enfrenta agora, uma nova onda do surto. Fronteiras fechadas, testes gratuitos para residentes, escolas mantiveram-se abertas e a economia nunca parou por completo. Porém, nas últimas semanas registaram-se milhares de novos casos no país. Avisos foram feitos com a impossibilidade de manter o equilíbrio entre a economia e a saúde, porém o governo manteve-se firme nas suas convicções.
             Com isto, teve de ser imposto um novo confinamento, que deveria terminar a 4 de maio, mas terá de ser prolongado até o início de junho. Singapura deve servir de exemplo aos países que querem levantar o mais cedo possível as medidas de contenção. Medida esta que pode ter um efeito inverso e ter de se impor uma quarentena forçada durante mais tempo, o que a nível económico será desastroso.

Foto: Evolução Novos Casos de COVID-19 em Singapura (Worldometer)

"Falsa Sensação de Segurança"


Evolução Novos Casos de COVID-19 em Portugal (DGS)

Uma "falsa sensação de segurança" - parece que já ouviram isto em algum lado. Frase utilizada pela nossa Diretora Geral de Saúde aquando da polémica da utilização generalizada de máscara em Portugal. Como observamos no gráfico acima, existe uma descida generalizada do número de novos casos de COVID-19 desde o dia 30 de abril. A explicação usual é estar diretamente ligada com as medidas de confinamento impostas, será mesmo assim? 
Nos dias 6 e 7 registaram-se novos picos de casos registados de COVID-19. 

Evolução de Testes Processados (DGS)
             Uma falsa sensação de segurança é anunciar que os casos estão a baixar, quando a quantidade de testes que está a ser realizada tem sido muito menor. Porque sem testes não há noção da dimensão do vírus no nosso território. Mas poderá também existir uma explicação para o que aconteceu. A diminuição de testes realizados aconteceu-nos dias antes da reunião no Infarmed, que decidiu o abrandamento das medidas de confinamento. Para uma maior análise deste tema recomendo que vejam o "Sexta às 9" do dia 1 de maio clicando aqui.

O que se conclui? 


             Conclui-se assim que temos de fazer a nossa parte para que este vírus não continue a propagar-se. Apesar do fim do Estado de Emergência, não esquecer que estamos em pleno Estado de Calamidade, como o nome indica não é para ser encarado com displicência. Devemos focar-nos apenas em saídas essenciais, evitar aglomerações de pessoas desnecessárias, tentar manter o distanciamento social. Claro que é difícil, tanto tempo sem ver os que mais gostamos e sem ir àqueles lugares que faziam parte de nós, mas temos de pensar que não podemos deitar tudo a perder nesta reta final. 
Cabe a cada um pensar no próximo e agir como tal.
É tudo por hoje, fiquem seguros.

Obrigado e até breve,
Daniel Branco

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Conseguirá uma máquina “pensar”? - Teste de Turing

O que é a consciência? 
Conseguirá uma máquina pensar, na aceção humana deste verbo? 
Será o espírito consubstanciado por um conjunto de neurónios no cérebro ou existirá alguma centelha inatingível no seu núcleo?


Para uma miríade de investigadores , estas considerações são vitais, nevrálgicas para o futuro da inteligência artificial. Alan Turing, cientista britânico do século XX, decidiu ignorar todas estas questões e colocar a tónica numa questão muito mais simples: pode um computador conversar como um ser humano?

Subjacente ao célebre Teste de Turing estaria esta ideia, esta questão.
Num artigo de 1950, "Computadores e inteligência", Turing propôs o seguinte jogo: um “juiz” ou “árbitro” humano troca mensagens de texto com jogadores invisíveis e avalia as respetivas respostas. Este jogo passaria a ser também aplicável aos computadores. 

Para passar no teste, um computador tem de substituir um dos jogadores sem alterar os resultados de forma substancial. Por inerência, um computador seria considerado inteligente se a sua conversa fosse similar à da de um ser humano.



Turing tinha um vaticínio interessante: por volta de 2000, as máquinas com 100 MB de memória passariam facilmente neste teste. Talvez se tenha precipitado.
Sem embargo da significativamente superior capacidade de memória dos computadores atuais, muito poucos lograram êxito no Teste de Turing.

 A maior parte concentrou-se, inclusivamente, em encontrar mecanismos ardilosos, sub-reptícios, astuciosos com vista a enganar os juízes, ao invés de utilizar a sua fenomenal capacidade de cálculo.

Sem prejuízo de nunca ter sido sujeito a um verdadeiro teste, o primeiro programa com algum êxito foi o ELIZA. Apenas com um código simples e curto, conseguiu enganar muitas pessoas passando-se por um psicólogo, incentivando-as a desabafar e ripostando as questões que lhe eram colocadas.
Outro precursor, PARRY, privilegiou uma abordagem um tanto diferente e antagónica, imitando um esquizofrénico paranoico. A sua conversa ancorar-se-ia essencialmente nas suas obsessões pré-programadas.


O sucesso de ELIZA E PARRY acabou por enfatizar, reforçar a fraqueza e falibilidade do teste de Turing. Com efeito, a definição humana de inteligência é incrivelmente ampla. Classificamos uma panóplia de coisas como inteligentes embora não o sejam. Os seres humanos classificam de inteligência toda uma série de coisas cuja inteligência não só é inexistente como inexequível.

Não obstante, competições anuais, como o Prémio Loebner, têm vindo a tornar este teste mais formal e acurado nas suas previsões.
Os juízes conhecem antecipadamente que alguns dos seus interlocutores são máquinas. Embora a qualidade tenha melhorado muitos programadores de robôs privilegiaram estratégias similares às de ELIZA e de PARRY.
Catherine, o vencedor de 1997, conseguia manter uma conversa espantosa e inteligente, mas somente quando o juiz falava de Bill Clinton , 42º presidente dos Estados Unidos.


Um dos robôs mais impressivos a superar o teste nos tempos recentes, Eugene Goostman, encarnava a personalidade de um rapaz ucraniano de 13 anos. O seu inglês era um tanto enferrujado, por inerência de todas as barreiras linguísticas e culturais que separam a Ucrânia dos EUA.

Outros programas, como o Cleverbot, adotaram uma abordagem diferente, analisando estatisticamente enormes bases de dados de conversas reais para aferir as melhores respostas. Alguns armazenam memórias de conversas anteriores, para incrementarem as suas capacidades com o tempo.
Embora as respostas individuais do Cleverbot pareçam fidedignamente humanas, este carece de uma personalidade consistente. É, em concomitância, incapaz de lidar com tópicos totalmente novos e é, por conseguinte, facilmente desmascarado.

Não obstante a presente falibilidade dos programas, progressos exponenciais têm vindo a ser feitos ao longo dos decénios. Quem, na época de Turing, poderia prever que os computadores de hoje seriam capazes de pilotar naves espaciais, realizar, cabalmente,  cirurgias delicadas, resolver equações de elevada complexidade, mas revelar inequívocas dificuldades em conversar sobre assuntos básicos do dia a dia?

Sucede que a linguagem humana é o espelho da própria natureza humana. É um fenómeno que nos é imanente, altamente complexo, que nem sequer pode ser captado pelo maior dicionário.

Um robô pode ficar atordoado e confuso perante pausas simples, como "hum..." ou perguntas sem respostas certas. E uma frase simples como: "Tirei o sumo do frigorífico e bebi-o mas esqueci-me de ver o prazo de validade", exige uma multiplicidade de conhecimentos inerentes e intuição para ser analisada.

Acontece que, para simular uma conversa humana, é necessário muito mais do que aumentar a memória ou a potência de cálculo. À medida que nos aproximamos do objetivo de Turing, teremos que continuar a perscrutar pelas questões mais profundas da consciência.

Obrigado,
Miguel Carvalho


terça-feira, 21 de abril de 2020

Será que o Homem é livre?

As grandes questões que se impõem, ao longo da vida do Homem, são usualmente do tema metafísico. Destas, destacam-se a existência de Deus, o verdadeiro sentido da vida e o Livre-arbítrio. Neste artigo, irei, como tal, abordar a terceira questão.


Será que o Homem é livre?


             Entre diversos, esta questão poderá soar bastante absurda, dado que nos sentimos livres. O Homem admite que todas as suas decisões são inteiramente da sua responsabilidade. Daí existir um sistema judicial e legislativo que responsabiliza cada elemento da sociedade pelas suas ações tomadas que vão contra a constituição. Contudo, a longo prazo tendo em conta a evolução tecnológica exponencial, este é talvez um dos conceitos fundamentais a discutir. São diversas as abordagens tomadas por filósofos e cientistas para derrubar esta ideia de liberdade. Ainda assim, antes de apresentar os argumentos que suportam este determinismo, é necessário definirmos o conceito de Livre-arbítrio e de Determinismo.




             Para vários a liberdade assenta num sistema anárquico. Para outros, este é um conceito relativo porque tudo dependerá do meio que perspetivamos. Por exemplo quando comparamos um cidadão comum a um presidiário, tendemos a afirmar que o cidadão comum é livre. No entanto, não é nenhuma destas definições que se procura. O livre arbítrio assenta na ideia de que o Homem tem absolutamente liberdade para tomar as suas escolhas. Em contraponto, o Determinismo assenta na ideia de que tudo está pré-determinado e o Homem é uma mera marionete do espetáculo do universo.
Agora que já foram abordados os conceitos necessários já é possível apresentar os factos que colocam em causa a nossa “Liberdade”.

Em primeiro lugar, é possível abordar um possível determinismo do ponto de vista físico. Diversas ideias surgiram sobre o espaço-tempo, mais especificamente sobre a forma como se comporta no seu suposto início e fim. Entre estas destacou-se uma ideia de que o espaço tempo não era infinito, contudo finito e ilimitado. Por outras palavras segundo esta ideia não haveria princípio nem fim do tempo Este não passaria, assim dum ciclo, onde todos os pontos do tempo teriam a mesma característica. Desta forma o universo seria governado por uma constante inflação e consequente contração do espaço tempo, e os acontecimentos adjacentes a este seriam inversos nos dois momentos. Não irei abordar de forma muito aprofundada o tempo, contudo, ao longo da inflação a desordem do universo aumentaria, e consequentemente, ocorreria a contração do mesmo, onde a desordem diminuiria exatamente da mesma forma quase como se houvesse um eixo de simetria no ponto onde a velocidade de expansão do universo seria zero. Concluir-se-ia que o tempo poderia ser abordado como um ciclo que se repetiria infinitamente e o Homem estaria aprisionado a um comportamento em função do aumento da desordem pré-determinada por todos os outros ciclos temporais.

Em segundo lugar, o determinismo humano pode ser suportado através de uma perspetiva neurológica. A este, denomina-se de determinismo biológico. Diversos estudos demonstram que as escolhas feitas pelo Homem, estão pré-determinadas pelo subconsciente. A título exemplificativo, destaca-se um estudo feito com um individuo e um dispositivo que lê as ondas cerebrais e aprende sobre as mesmas. Este estudo tem como base um jogo.

             O indivíduo deve carregar num botão antes deste ficar vermelho. Com o passar do tempo enquanto o indivíduo “joga o jogo”, o dispositivo começa a acender a luz antes de sequer este fazer a escolha de carregar no botão. Daqui conclui-se efetivamente que as nossas escolhas são fortemente influenciadas pelo nosso subconsciente, sendo este altamente sugestível, quer pelo ambiente como pelo código genético intrínseco a cada ser humano. Esta teoria demonstra uma grande coerência, no sentido que todo o universo obedeceria consequentemente ao determinismo físico.

             Para além disso o determinismo pode ser abordado de outro modo. A inteligência artificial tem tido um papel crescente na vida Humana. Ainda assim, apesar de se falar da potencial “consciencialização da máquina” muitos cientistas continuam a referir que a robótica nunca atingirá o ponto de livre-arbítrio. Para além disso, outras comunidades científicas afirmam sobre a potencialidade dos robots atingirem um nível humano. Combinando ambas as teorias, poder-se-ia afirmar que a inteligência artificial poderia atingir o nível de humanidade, sendo o conceito de consciência e livre arbítrio mera ilusão?

             Após todos os argumentos demonstrados, diversos problemas são levantados como:
Será correto julgar alguém pelos seus atos, existindo a forte probabilidade da responsabilidade social e individual não existir?

             Este problema representa um paradoxo a nível mental, uma vez que cada ser humano sente-se livre.
             A tendência seria afirmar que não somos livres e cairmos consequentemente numa profunda angústia existencial. Tal sentimento traduzir-se-ia num conformismo, que não é compatível como a convivência social. Como tal, de modo a vivermos uma vida minimamente motivante, é fundamental crermos que temos o poder de mudar o rumo da nossa vida, tendo em conta o facto de a verdadeira imparcialidade não existir, porque todo o Homem é fruto de um código genético associado a uma vivência social.

Deixo aqui um vídeo acerca do estudo do determinismo biológico.





Obrigado,
Rodrigo Santos

terça-feira, 14 de abril de 2020

O que é o tempo?

Muito boa noite, o artigo de hoje, autoria do Miguel Carvalho faz uma abordagem que nos fará questionarmos o que realmente sabemos acerca da coisa mais importante das nossas vidas, o tempo. Esperemos que gostem.


O que é o tempo? Será o tempo um fenómeno real? 

Uma abordagem física do “tempo”


As primeiras medições do tempo eram a consequência de observações dos ciclos do mundo natural, das transições ocorridas do dia para a noite e de estação para estação. Estas medições foram de nuclear importância para o advento da construção de calendários.
Com o dealbar dos séculos, surgiram novas invenções que permitiram sistemas de medição precisa do tempo, como os relógios de sol ou os relógios mecânicos.
Não obstante, cumpre colocar algumas questões: o que é que estamos a medir exatamente? Será o tempo uma ilusão ou será um componente inextricavelmente ligado à nossa realidade?



Será que o tempo existe? Ou será uma mera construção mental humana? Numa primeira instância, a resposta parece ser óbvia. Claro que o tempo existe. É uma parte integral da nossa vida. É o responsável pela evolução física e intelectual de cada um de nós na nossa breve estadia no planeta Terra. É uma constante da realidade, imanente ao próprio funcionamento do Universo. Sem o tempo, é difícil não só imaginar como refletir sobre o desenvolvimento da existência.

A convicção do tempo enquanto fenómeno absoluto esteve fortemente arreigada no pensamento de grandes intelectuais da Idade Moderna. Depois... bem, depois surgiu Einstein com a sua Teoria Geral da Relatividade.


O que esta teoria preconiza é que o tempo passa para todos, mas a perceção que temos dessa passagem é variável consoante a situação subjetiva em que nos encontramos, como viajar próximo da velocidade da luz ou orbitar um buraco negro colossal. Einstein resolveu esta maleabilidade do tempo, combinando-o com o espaço, dando origem ao espaço-tempo. Esta Teoria parecia confirmar que o próprio tempo está tecido, inscrito, inserido na estrutura fundamental do Universo.

Mas existe uma questão que o seu génio não conseguiu resolver: se o tempo faz parte do tecido do Cosmos, porque é que conseguimos mover-nos no espaço em qualquer direção, mas no tempo somente numa orientação?

Não obstante os nossos projetos profissionais, os nossos desgostos académicos ou agruras amorosas, seja o que for que façamos, sabemos que o tempo passado está, teimosamente, atrás de nós. É irrecuperável. Isto chama-se “a flecha do tempo”.

Quando uma gota de tinta cai num copo de água sabemos, por instinto , que a tinta preencherá o copo. Imaginem o oposto. Veriam o tempo a desdobrar-se para trás . Vivemos num universo onde a gota de tinta se difunde na água e não num onde esta se reúne de novo.



Em Física, isto é descrito pela Segunda Lei da Termodinâmica. Os sistemas do nosso universo orientam-se da ordem para a desordem. É essa propriedade do universo que define a direção da flecha do tempo. Um dos grandes desideratos e objetivos da Física nos últimos 50 anos tem sido a conjugação da relatividade geral com a mecânica quântica numa grande “Teoria de tudo”. Umas das propostas, chamada equação de Wheeler-DeWitt  nem sequer inclui o tempo. Posto isto, será o tempo uma mera ilusão desencadeada pelas nossas limitações na forma como percecionamos o Universo? Simplesmente não o sabemos.

Talvez o tempo não seja uma propriedade fundamental mas antes uma propriedade emergente. Propriedades emergentes são coisas que não existem em pedaços individuais de um sistema, mas existem para o sistema como um todo. Um filme, por exemplo, cria mudanças através do tempo ao usar uma série de imagens imóveis que parecem ter uma transição contínua e fluída entre elas. Ao deslizarmos pelas imagens suficientemente depressa, o nosso cérebro vê a passagem do tempo
a partir da sequência de imagens imóveis. O movimento é real, mas é também uma ilusão.



















Pode a física do tempo ser, de algum modo, uma ilusão parecida? Os físicos continuam à procura por uma explicação completa. Pode ser que no futuro consigamos conhecer os mecanismos subjacentes à realidade do tempo. Mas, ainda estamos longe de o alcançar. Pelo menos, por agora.

Muito obrigado,

Miguel Carvalho 

domingo, 5 de abril de 2020

Usar ou não usar máscara?

Boa noite a todos os leitores,
             O artigo de hoje traz-vos uma comparação da realidade portuguesa e de outros países em que é aconselhado/imposto o uso de máscaras, como a República Checa e a grande maioria dos países asiáticos. Sendo que na República Checa, que farei uma comparação mais a fundo, é obrigatório por decreto do Governo o uso destas estando prevista uma penalização de quem não cumprir.


Foto: Mohd Rasfan/AFP

Portugal VS República Checa

População Total

A população total destes dois países é praticamente idêntica. 
Portugal: 10.029 milhões
República Checa: 10.065 milhões


Primeiro caso confirmado 

Os dois países assemelham-se também neste ponto.
Portugal: 2 de março
República Checa: 1 de março 


100 casos confirmados

Portugal: 13 de março
República Checa: 12 de março 


Número de Infetados 

O número de infetados difere brutalmente entre os dois países, Portugal regista mais do dobro dos infetados da República Checa.
Portugal: 11.278
República Checa: 4.475


Número de mortos 

Portugal: 295
Republica Checa: 62

Mortalidade por milhão de habitante

Mortalidade de países que aconselharam o uso máscara no continente asiático por milhão de habitante

China:
Coreia do Sul: 4
Hong Kong: 0.5
Japão: 0.6
Singapura: 1


Mortalidade de países que aconselharam/impuseram o uso de máscara na Europa por milhão de habitante

Austria: 23 *
Bosnia: 6
Eslováquia: 0.2
República Checa: 6

*A Áustria adotou esta medida há cerca de duas semanas.


Mortalidade de países que não aconselharam/impuseram o uso de máscaras na Europa por milhão de habitante


Espanha: 266
Itália: 254
Portugal: 29

--> Todos os dados foram consultados a 5 de Abril 17:31

Medidas Restritivas 

Fecho de escolas

Portugal: 16 de março
República Checa: 11 de março


Declaração do Estado de Emergência 

Portugal: 18 de março
República Checa: 12 de março

Uso de máscara 

Portugal: Não adotou 
República Checa: 18 de março

             A partir destes conjuntos de dados afere-se que os países que adotaram medidas de prevenção contra a propagação do vírus estão a conseguir controlá-lo e regressarão ao seu quotidiano de uma forma mais rápida do que os restantes.


Tedros Adhanom, Diretor-Geral da OMS
Foto: REUTERS/Denis Balibouse
             A Organização Mundial de Saúde até agora não ter aconselhado à escala global o uso generalizado de máscaras, repetindo semana após semana que "Não há evidências científicas que o uso de máscara pela população em massa tenha algum benefício" demonstra uma clara falta de noção e conhecimento da realidade. Acrescentam ainda que o uso indevido de máscaras pode propagar o vírus, isto que é uma verdade, sendo que devemos seguir todos os passos para uma utilização adequada e segura. Vídeo explicativo aqui.

             Em Portugal, a Direção Geral da Saúde, seguindo a diretiva da OMS, alega que as máscaras dão uma falsa sensação de segurança.
             O diretor geral do Centro Chinês para o Controlo e Proteção de Doenças destaca que "o grande erro dos EUA e da Europa é o facto das pessoas não usarem máscara". Pelos dados que vos apresentei é uma afirmação perfeitamente válida, sendo que está a vista de todos que deveríamos seguir o exemplo dos países asiáticos quanto ao combate à COVID-19.

República Checa


Foto: www.hatefree.cz
             Sem garantias que houvesse uma oferta para a grande procura após o decreto do uso obrigatório de máscaras uma grande onda de solidariedade rompeu pelo país. Onde toda a gente que possuísse uma máquina de costurar começou a fabricar máscaras em larga escala. Acedam aqui ao vídeo do movimento.
             É incentivado que, quando não seja possível o uso de máscara, se utilizem lenços com uma grossura considerável ou encharpes.


Eslováquia 


             Um estudo levado a cabo pelo jornal Dennikn revela que 80% dos inquiridos concorda com a instauração do uso de máscaras.
             Até agora a Eslováquia conta com 485 infetados com apenas 1 vitima mortal a registar.
             De notar que é medida a temperatura a todas as pessoas que entrem em centros comerciais, hospitais e fábricas.


Cidade de Jena, Alemanha


Foto: DPA
             Foi a primeira cidade da Alemanha a impor o uso de máscaras à população. Num apelo feito a partir das suas redes sociais gerante o equipamento básico aos seus profissionais de saúde e restantes trabalhadores públicos. Porém, anuncia à restante população que costure as suas próprias máscaras de proteção em casa e que não precisam de ser perfeitas, desde que protejam.


O que se conclui?


             Na minha ótica, analisando os dados acima, concluo que a obrigação do uso de máscara quando nos deslocamos para fora da nossa habituação deve ser instaurada. Está comprovado que é uma mais valia para a nossa segurança mas também para a dos que nos rodeiam. 
             A minha previsão é de nas próximas semanas a OMS recomende o uso generalizado por todo o mundo. Mesmo sem esta recomendação, usem máscaras, lenços, camisolas de gola alta, cachecóis, o que puderem, na medida em que o vírus é transmitido mesmo uma pessoa estando assintomática, sem sintomas não sabendo que aloja o novo coronavírus dentro de si.
Por hoje é tudo.

Fiquem seguros 
Obrigado e até breve,

Daniel Branco


sábado, 4 de abril de 2020

Como não deixar que o isolamento nos vença

Muito boa noite,
             O artigo de hoje é acerca do isolamento a que estamos sujeitos e como não podemos deixar que este nos consuma. Foi escrito pelo Rodrigo Santos e esperemos que gostem.

             Vivemos numa época nunca vivida. Encontramo-nos num período em que o amor é sinónimo de distância devido a esta ameaça iminente. No entanto, apesar de diversas figuras públicas, como por exemplo Bill Gates, este que abordou numa Ted talk em 2015 acerca do perigo crescente da probabilidade de vivermos uma pandemia, no entanto, os governos nunca se prepararam para esta ameaça. O único tipo de guerras para o qual a humanidade se encontrava preparada e mais receava noutros tempos, era uma guerra nuclear. Todas as nações têm um exército pronto a avançar, com centenas de horas treino específicas em função de uma guerra. Em contraponto, os sistemas de saúde revelam, claramente, que não estão preparados para enfrentar um vírus desta dimensão.
Para além disso, existe ainda outro problema, para o qual é ainda mais difícil preparar: o isolamento social. 

Foto: Agência Brasil
A população fica isolada em casa, por vezes sem possibilidade de teletrabalho. O tempo aparenta dilatar, a mente começa a divagar sobre este perigo iminente, a preocupação para com familiares e amigos, que não podem parar, (como é o caso de por exemplo dos profissionais de saúde e dos trabalhadores de caixas de supermercado), aumenta. 
Estes são os pensamentos que mais assombram, atualmente, a nossa sociedade. Porém, existem modos de preservarmos a nossa sanidade mental, que apesar de ser por vezes desvalorizada é um preconceito que tem de ser erradicado. Diversas áreas menosprezadas pela sociedade revelam-se agora bastante úteis na manutenção da nossa saúde, entre as quais o exercício físico e a arte.
             Diversos estudos apontam para tentarmos manter uma rotina neste período difícil. Sugere-se também que tentemos manter o nosso corpo saudável, dado que a ideia de um corpo são implicar diretamente uma mente sã, tem ganho bastante evidência científica. Não é só a nossa mente que altera a nossa postura, mas é a nossa postura altera a nossa mente.
Foto: iStock
             O CNBC revela, ainda que deve existir um equilíbrio da quantidade de notícias que vemos acerca da COVID-19. A população deve manter-se informada, porém nunca até à exaustão. De modo devem tentar ocupar o tempo livre com algum hobby. Desde ler, a ver alguma série (moderadamente como é óbvio), pintar, desenhar, tocar música, meditar, fazer videochamadas com os que nos são próximos, entre outros…
             Um estudo apresentado pelo The Lancet, revela que após a quarentena do pequeno surto do coronavírus SARS, entre 10% a 29% da população afetada demonstrou comportamentos stress pós-traumático.
             Em conclusão mantenham-se acima de tudo seguros, e tentem manter-se ativos. Creio que, apesar de vivermos uma época de desafios inigualáveis, podemos perspetivar este período de quarentena como uma oportunidade para nos conhecermos a nós próprios, e viver mais um dia de cada vez.

Muito obrigado pela vossa atenção,

Rodrigo Santos

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Uma estratégia para Portugal na luta contra a COVID-19

Boa noite, 
             No artigo de hoje é nos trazido uma análise estratégica de como Portugal deverá atuar e comportar-se na guerra contra o novo coronavírus. É nos trazida pelo Miguel Carvalho, um dos convidados para o blog dar o próximo passo. Esperemos que gostem e partilhem! Muito obrigado.                                               
            
             Este recente surto pandémico tem tudo para ser um dos maiores desafios enfrentados pela sociedade portuguesa nas últimas décadas. Assistir-se-á, seguramente, a uma forte comoção social e a uma reestruturação da vida política portuguesa. O que está em jogo, em causa é o nosso modo de levar a vida, numa sociedade moderna , desenvolvida, pluricultural e democrática. Portugal está em guerra. Em guerra contra um inimigo perigoso,  invisível mas que, não obstante a sua invisibilidade, colocará a prova, de maneira bem visível, os destinos de uma sociedade, de um povo, de uma nação.

Como em qualquer guerra, a definição de uma estratégia é fundamental para o triunfo final. 
             Qualquer estratégia estará condicionada pela evolução de dados e informação técnica disponível. Não sabemos tudo sobre o inimigo - taxas de letalidade, imunidade natural, período de incubação ou que vacina o poderá neutralizar, etc. Mas sabemos que o vírus existe e temos à disposição um conjunto de mecanismos que permitem a definição de uma estratégia coerente e eficaz de combate. Afinal, o que é uma estratégia? Uma estratégia é, por definição, a coordenação de recursos limitados com vista à prossecução de um objetivo. Neste caso, a estratégia passará, necessariamente, por derrotar a COVID-19.

             Quais deverão ser, por conseguinte, os alicerces fundamentais de uma estratégia nacional para derrotar a Covid-19? Para ampliar as nossas hipóteses de sucesso, diria que a estratégia portuguesa deveria assentar em quatro pilares essenciais: incrementar a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde; delinear um plano que permita mitigar a destruição humana e material provocada pela pandemia; desenvolver um plano que não desvirtue os comportamentos sociais e que vise preservar uma sociedade com níveis de bem-estar iguais aos dos meses que precederam o surto e acreditar na ciência.
Desenvolvamos, sucintamente, cada um desses pilares.

             Primeiro, incrementar a capacidade de resposta do SNS será instrumental, decisiva para superar o vírus. Na ótica do professor Nuno Monteiro, da Universidade de Yale , em crónica no Expresso, este pilar é tão importante que é “incontroverso”. É fulcral que canalizemos recursos financeiros, materiais e humanos ao SNS e que procedamos à sua reorganização de forma a ampliar a sua capacidade de resposta, sem descurar, todavia, todas as outras necessidades de saúde dos cidadãos.

             Segundo, para mitigar os efeitos destrutivos do vírus, importa colocar a tónica em duas palavras: testar e detetar. Para tal, teremos de desenvolver a capacidade de testar todos os residentes nacionais. Testá-los quer porque poderá ser a única salvação de uma eventual sobrecarga no SNS quer porque a única maneira de manter uma sociedade funcional durante muito tempo, reside precisamente em saber, com exatidão, quem pode e não pode expor-se ao risco, quem pode e quem não pode colaborar no esforço nacional.
             Terceiro, o bem-estar social será da maior relevância no combate a este flagelo pandémico. Há que preservar a segurança do povo português custe o que custar. Chegámos a um ponto onde o rigor económico deve ser relegado para segundo plano. O que está em causa é a vida das pessoas. Encaremos todos os gastos futuros que o Governo Português faça na manutenção de negócios e empresas, não como uma despesa, mas sim como um investimento na sobrevivência da sociedade.
             Por último, há que acreditar na ciência e na visão dos especialistas. Há que acreditar na Direção Geral de Saúde. Há que acreditar nos especialistas, nos epidemiologistas. A ciência, com a sua natureza metódica, é o principal antídoto para o veneno das especulações e superstições. Sigamos as recomendações, fiquemos em casa, ajudemos os vulneráveis e ignoremos os discursos ocos daqueles que não se orientam pela verdade mas sim por um conjunto de  agendas e dogmas políticos. Neste aspeto, a política do Governo Português tem sido, a meu ver, exemplar. Agora, tudo dependerá do sentido cívico das populações.

             Em conclusão, fiquemo-nos com esta frase: “Tempos excecionais exigem medidas excecionais”. Apenas uma estratégia coerente e uma atitude de sacrifício do povo português permitirá suplantar este problema.



Terreiro do Paço, Lisboa


Obrigado pela atenção,

Miguel Carvalho